Quando você transforma o diagnóstico em identidade pública constante, você corre o risco de reduzir o indivíduo à condição
O Brasil tem hoje 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista, o equivalente a 1,2% da população, segundo o Censo 2022 do IBGE.
Se olharmos para o recorte infantil, o número chama ainda mais atenção. Entre crianças de 5 a 9 anos, a proporção chega a cerca de 1 a cada 38, mostrando um crescimento importante nos diagnósticos nas gerações mais novas.
Nos Estados Unidos, os dados mais recentes do Centers for Disease Control and Prevention mostram que 1 em cada 31 crianças de 8 anos está dentro do espectro autista, o que representa aproximadamente 3,2% dessa população.
Ou seja, estamos falando de um tema sério, crescente e que precisa ser tratado com responsabilidade.
Mas existe um ponto que ninguém quer discutir.
A banalização.
Hoje, virou comum ver pessoas utilizando cordões com o símbolo do quebra-cabeça no pescoço como forma de identificação do autismo. A intenção, na maioria das vezes, é boa. É tentar garantir respeito, prioridade e compreensão.
Mas a pergunta que precisa ser feita é outra.
Isso realmente ajuda?
Ou isso está reforçando exatamente o preconceito que se diz combater?
Preconceito é julgamento antes do conhecimento.
E o cordão faz exatamente isso.
Antes de qualquer interação, antes de qualquer conversa, antes de qualquer convivência, já existe um rótulo.
E o ser humano reage.
Não com teoria.
Com instinto.
A reação não é a que aparece em campanhas publicitárias.
A reação real muitas vezes é:
Evitar;
Se afastar;
Não interagir.
Não porque a pessoa é ruim. Mas porque ela não sabe lidar.
E quando você não sabe lidar, você se afasta.
Agora, vem o ponto técnico que precisa ser colocado.
O autismo é um transtorno do neurodesenvolvimento. E como todo transtorno, ele existe em níveis. Existem pessoas que precisam de apoio intenso. Mas também existem aquelas que vivem com autonomia praticamente completa.
Pessoas com TEA nível 1 e nível 2, em muitos casos, não são identificadas visualmente. A convivência revela, o comportamento mostra, o tempo esclarece.
Mas o cordão antecipa.
Ele entrega antes da experiência.
Ele diz:
“Julgue-me antes de me conhecer”
E isso é perigoso.
Porque ao mesmo tempo que as famílias lutam contra o preconceito, muitas vezes estão reforçando o mecanismo que gera esse preconceito.
Outro ponto importante:
O Brasil já possui instrumentos legais de identificação e garantia de direitos, como a CIPTEA, criada pela Lei nº 13.977/2020.
O direito à prioridade não depende de exposição constante.
Ele depende de apresentação quando necessário.
Existe uma diferença grande entre garantir direitos
e expor identidade o tempo todo.
E essa linha está sendo ignorada.
Agora, eu falo com base na prática.
Eu trabalho há anos com pessoas com TEA. E a forma que encontrei de desenvolver essas pessoas não foi separando, não foi rotulando, não foi criando uma identidade limitada.
Foi exigindo.
Foi integrando.
Foi tratando como qualquer outro aluno.
Claro que existem ajustes. Claro que existem momentos de crise. Claro que existem estratégias específicas. Isso é técnico. Isso é necessário.
Mas em grande parte do tempo, são crianças e adolescentes como quaisquer outros.
Treinam juntos.
Recebem cobrança.
São desafiados.
E o resultado aparece.
Estamos formando atletas.
Estamos formando professores.
Não porque são autistas.
Mas porque são capazes.
E é exatamente aqui que está o ponto mais importante.
Quando você transforma o diagnóstico em identidade pública constante, você corre o risco de reduzir o indivíduo à condição.
E ninguém é só um diagnóstico.
O símbolo do quebra-cabeça nasceu representando algo que precisava ser entendido. Hoje, ele muitas vezes é usado como um aviso.
E talvez a pergunta mais importante desse texto seja essa:
Estamos promovendo inclusão ou estamos criando uma placa invisível dizendo “cuidado”?
A inclusão de verdade não acontece quando a pessoa é identificada.
Acontece quando ela é respeitada sem precisar se explicar o tempo todo.
Nem todo apoio precisa virar rótulo.
*Alan Nascimento é técnico da Seleção Brasileira de Taekwondo Paralímpico, com participação nos Jogos Paralímpicos de Tóquio 2020 e Paris 2024, além dos Jogos Parapan-Americanos de Lima 2019 e Santiago 2023. É pioneiro no desenvolvimento do parataekwondo no Brasil, ex-presidente da Federação Brasileira de Parataekwondo e atual presidente da Associação Visando o Amor (AVISA), organização dedicada à inclusão e ao esporte para pessoas com deficiência. É autor do livro “Parataekwondo – História, desafios e vitórias – Manual Prático do Parataekwondo”, considerada a primeira obra do mundo dedicada exclusivamente à modalidade. Dedica sua trajetória à formação de atletas, à defesa dos direitos das pessoas com deficiência e ao fortalecimento do esporte como ferramenta de transformação social.



