Atletas com deficiência auditiva têm menos visibilidade na mídia, menos transmissão televisiva e menos patrocinadores
O esporte surdo no mundo tem quase um século de história. As Surdolimpíadas existem desde 1924, sendo reconhecidas pelo Comitê Olímpico Internacional como a principal competição mundial para atletas com deficiência auditiva. Mesmo assim, o esporte surdo continua sendo um dos movimentos esportivos mais invisíveis do planeta.
A edição mais recente das Surdolimpíadas foi realizada no Brasil, em Caxias do Sul, em 2022. O evento reuniu mais de 2.400 atletas de 72 países, disputando diversas modalidades esportivas.
O Brasil, como país sede, levou sua maior delegação da história: 159 atletas surdos, representando o país em diferentes modalidades.
Esses números mostram algo importante: existe talento, existe participação internacional e existe história.
O que ainda falta é estrutura.
O esporte surdo enfrenta dificuldades conhecidas. Tem menos visibilidade na mídia, menos transmissão televisiva e menos patrocinadores. A comunicação também é um desafio permanente. Embora a Libras seja reconhecida pela Lei nº 10.436/2002 como a segunda língua oficial do Brasil, ainda são poucos os profissionais preparados para se comunicar de forma plena com a comunidade surda.
Esse cenário se torna ainda mais relevante quando olhamos para o tamanho dessa população. Segundo dados do IBGE, mais de 10 milhões de brasileiros possuem algum grau de deficiência auditiva, sendo aproximadamente 2,7 milhões com surdez profunda.
Ou seja, estamos falando de uma comunidade enorme.
Mas quando observamos o sistema esportivo organizado, os números são muito menores. O esporte surdo estruturado no Brasil envolve aproximadamente 5 mil atletas registrados, segundo dados da própria Confederação Brasileira de Desportos de Surdos.
A distância entre o potencial da comunidade surda e a participação esportiva organizada é gigantesca.
E isso não acontece apenas por falta de recursos.
Existe um problema estrutural que precisa ser discutido.
O modelo de organização do esporte surdo no Brasil também tem dificultado o desenvolvimento das modalidades.
No sistema olímpico e paralímpico existe uma estrutura clara de governança esportiva. Os comitês dialogam com as confederações nacionais de cada modalidade. Essas confederações organizam o esporte no país, trabalham com federações estaduais, clubes, técnicos e atletas. Essa rede cria capilaridade, calendário esportivo e desenvolvimento técnico.
No esporte surdo brasileiro, essa estrutura não acontece da mesma forma.
A Confederação Brasileira de Desportos de Surdos concentra a gestão das modalidades através de federações estaduais de desporto surdo que administram vários esportes simultaneamente. Esse modelo acaba isolando as modalidades das próprias estruturas esportivas já existentes no país.
Na prática, muitas modalidades não dialogam com suas confederações nacionais nem com as federações estaduais das modalidades.
O resultado é previsível: falta difusão.
E quando a estrutura não funciona, quem paga a conta são os atletas.
Um exemplo claro vem do taekwondo. Pela ausência de eventos nacionais organizados dentro do sistema do desporto surdo, atletas da modalidade encontram dificuldades para cumprir critérios exigidos por programas federais como o Bolsa Atleta, uma política pública criada pela Lei nº 10.891/2004 para apoiar atletas de alto rendimento.
Os atletas surdos passaram anos lutando para ter acesso a esse direito. Foi apenas em 2019 que os atletas surdos voltaram a ser contemplados no programa Bolsa Atleta, ampliando o acesso ao benefício para essa comunidade esportiva.
Mas para receber o benefício, é necessário cumprir critérios técnicos baseados em resultados e participação em competições oficiais.
Sem calendário esportivo consistente, muitos atletas ficam sem pontuação e acabam perdendo um direito que deveria ser garantido pelo próprio desempenho esportivo.
Esse não é um detalhe burocrático. É um problema estrutural que impacta diretamente a carreira de atletas que treinam, competem e representam o país.
Outro ponto importante é o financiamento do esporte brasileiro. Desde 2001, a Lei nº 10.264, conhecida como Lei Agnelo-Piva, destina parte da arrecadação das loterias federais para o esporte olímpico e paralímpico, garantindo financiamento permanente para esses sistemas esportivos.
No entanto, o desporto surdo historicamente não recebeu a mesma estrutura de financiamento direto que os sistemas olímpico e paralímpico possuem.
Ou seja, o esporte surdo já enfrenta menos recursos, menos visibilidade e mais barreiras de comunicação.
Quando a própria estrutura esportiva interna também não consegue ampliar as oportunidades, o desenvolvimento do esporte fica ainda mais comprometido.
A confederação que representa um movimento esportivo precisa ser, antes de tudo, um facilitador. Precisa abrir portas, construir pontes, integrar modalidades e ampliar oportunidades.
O esporte surdo brasileiro possui atletas talentosos, possui uma comunidade enorme e possui história internacional relevante.
O que precisa agora é transformar a estrutura em uma ferramenta de crescimento.
Porque no final das contas, o esporte não existe para servir às instituições.
As instituições existem para servir aos atletas.
* Alan Nascimento é técnico da Seleção Brasileira de Taekwondo Paralímpico, com participação nos Jogos Paralímpicos de Tóquio 2020 e Paris 2024, além dos Jogos Parapan-Americanos de Lima 2019 e Santiago 2023. É pioneiro no desenvolvimento do parataekwondo no Brasil, ex-presidente da Federação Brasileira de Parataekwondo e atual presidente da Avisa (Associação Visando o Amor), organização dedicada à inclusão e ao esporte para pessoas com deficiência. É autor do livro “Parataekwondo – História, desafios e vitórias – Manual Prático do Parataekwondo”, considerada a primeira obra do mundo dedicada exclusivamente à modalidade. Dedica sua trajetória à formação de atletas, à defesa dos direitos das pessoas com deficiência e ao fortalecimento do esporte como ferramenta de transformação social.



