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Enchentes Urbanas, o verdadeiro culpado

Alagamento Guarulhos
Foto: Wilson Dias/Agência Brasil
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Nas últimas semanas pudemos ver os transtornos causados pelas fortes chuvas que caíram sobre grande parte do sudeste do país, deixando desabrigados, causando perdas materiais e até vítimas fatais. Estados como Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo e São Paulo ainda não terminaram de contabilizar seus prejuízos.

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Do dia 5 a 10 de fevereiro as precipitações chamadas de chuvas de verão ultrapassaram suas médias históricas, deixando grande parte da Região Metropolitana de São Paulo em baixo d’água e em Guarulhos não foi diferente.

A Defesa Civil de Guarulhos atendeu 83 ocorrências por toda a cidade.

Com chuvas que chegaram a 88 milímetros em uma hora, equivalente a 88 litros de água em 1 metro quadrado, a cidade mais uma vez não resistiu e teve diversos pontos de alagamento.

Apesar de ser uma constante nesta época do ano, os dois primeiros meses de 2020 tiveram os índices pluviométricos (medida em milímetros, resultado da soma de quantidade de chuva que cai num determinado local e período de tempo) bem acima da média esperada.

Os quadros comparativos abaixo deixam mais claro esse crescimento acima da média:

MÉDIA PLUVIOMÉTRICA DO ANO DE 2013 AO ANO DE 2019
DEZEMBRO 180 mm
JANEIRO 264 mm
FEVEREIRO 235 mm
INDICE PLUVIOMÉTRIO 2019/2020
DEZEMBRO 2019 230 mm 28% MAIOR QUE A MÉDIA DOS ULTIMOS 7 ANOS
JANEIRO 2020 401,4 mm 52% MAIOR QUE A MÉDIA DOS ULTIMOS 7 ANOS
FEVEREIRO 2020 487,2 mm 106% MAIOR QUE A MÉDIA DOS ULTIMOS 7 ANOS

Fonte: Defesa Civil de Guarulhos.

Para se ter uma ideia, o Rio Pinheiros, um dos principais rios que cortam a Capital do Estado, não transbordava há pelo menos 15 anos.

Mas quais os fatores que fazem com que as enchentes urbanas ocorram?

São diversos os fatores que contribuem para as enchentes urbanas, passando do papel de bala jogado no chão até o arranha céu construído na cidade.

Vemos nas mídias sociais, nos editorias, nos comentários jornalísticos e na boca do povo inúmeras acusações, como por exemplo: a culpa é do povo que joga papel no chão, a culpa é da indústria que tem poluído o meio ambiente, a culpa é do Governo que não toma ações contra enchentes, a culpa é do aquecimento global e por aí vai.

Ora, precisamos entender que não são fatores isolados que causam as enchentes, mas uma série interconectada destes fatores.

Vivemos em uma cidade que cresceu de forma desordenada, temos ocupações e invasões em áreas que não deveriam ter pessoas morando, como por exemplo beira de rios, córregos, alto de morros e encostas, o índice de impermeabilização do solo só cresce ano a ano, o número de lixo e demais resíduos jogado nas ruas também crescem de forma assustadora, os sistemas de micro e macro drenagem em muitos casos estão aquém da capacidade necessária e ainda sofrem com sua deterioração ou obstrução com lixo carregado pela água e resíduos naturais.

Os desmatamentos, que favorecem o aquecimento das cidades, criando ilhas de calor, são responsáveis por desregular o ciclo da água, fazendo com que as precipitações sejam maiores. Quando esse desmatamento acontece na beira de rios e córregos faz com que a velocidade da água seja maior. Com isso, carrega terra, lixo e outros sedimentos para dentro dos corpos d’água, gerando o assoreamento e deslizamento das margens.

Questão importante de levantar é o mercado imobiliário, este faz com que a cada dia tenhamos prédios altos, com fundações e garagens mais profundas, com isso alterando a circulação de vento e afetando o lençol freático.

As avenidas e principais vias construídas sobre o leito dos rios e córregos, alguns deles canalizados de forma a confinar o curso da água e seus ciclos naturais, contribuem significantemente para as cheias de suas várzeas que agora são pistas de rolamento e passeios.

Existem outros fatores, mas acredito que os principais sejam os que listei acima, e como disse, não agem de forma isolada, mas em ações coordenadas que tem seus efeitos ampliados de forma exponencial, gerando resultados desastrosos.

Guarulhos, como tantas outras cidades grandes de nosso país, possui todos os problemas citados e mais alguns. Como esse é um artigo e não uma dissertação sobre o tema, vamos nos apegar aos principais fatores e como tentar resolver isso.

Em 2019 foram recolhidos pela Proguaru S/A, empresa de economia mista que cuida da zeladoria da cidade, 523.896,03 m3 de lixo e outros resíduos, proveniente do desassoreamento de córregos e valas da cidade, o que equivale a quase 105 mil caminhões tipo toco, vejam só quanta coisa!

Esse serviço é de manutenção, ou seja, obrigação de ser feito, no entanto, se houvesse maior colaboração da população, com certeza esses números seriam menores, e o investimento utilizado poderia ser redirecionado para outros temas mais importantes.

Lixo e resíduos têm uma participação de destaque, mas não podemos por nesse fator a inteira responsabilidade pelas corriqueiras enchentes urbanas.

Um sistema de micro e macro drenagem com maior e melhor eficiência precisa ser estudado e implantado; Padrões, normas, materiais de construção e equipamentos mais modernos, ecológicos e com índice de permeabilidade maior devem ser utilizados, entre esses produtos podemos citar os concretos e outros pavimentos permeáveis; O replantio de árvores e demais vegetações na beira dos córregos; O aprofundamento das calhas destes; A canalização aberta dos córregos e valas com respeito ao seu leito e área alagável; Realizar estudos para a execução de obras de maior vulto que tenham visão nos problemas de futuro e não apenas resolver problemas históricos, e olha que nem vou entrar na questão da necessidade de resolver o problema da Rodovia Presidente Dutra, que funciona como uma barragem para Guarulhos.

Como Cidade precisamos da definição de um Plano de Drenagem que converse de forma harmônica com o Plano Diretor e Plano de Mobilidade Urbana, implementando uma visão de cidade inteligente e bem distribuída em suas zonas.

Soluções mais rápidas, baratas e que podem ser implementadas são os parques lineares ao redor dos córregos e valas, jardins de chuva ou jardins alagados, que podem ser colocados em diversos pontos com maior índice de impermeabilização e ainda, utilizar intertravados permeáveis nos passeios, facilitando a penetração da chuva sem prejudicar o pavimento das vias.

Em São Paulo, no Parque Ibirapuera e no Butantã, além de mais 19 pontos da cidade, já existem jardins de chuva faço o convite para que conheçam um pouco mais.

Obviamente que tudo isso requer tempo e dinheiro, mas requer também a participação efetiva da população, governo, legisladores, órgãos fiscalizadores e controladores, estes últimos muitas vezes não estão preparados para a velocidade das mudanças de tecnologia e processos.

O que quero dizer com isso?

É preciso modernizar! As Leis muitas vezes impedem que se aplique o que há de mais moderno em materiais, equipamentos, procedimentos e metodologias, a população precisa colaborar com a sua parte que é urbanidade, asseio e cobrança, os governantes eleitos precisam preparar planos e aplicar recursos para solucionar os problemas, os legisladores precisam criar Leis que transformem questões estruturantes em obrigações e planos de cidade, estado, país e não de governo que muda a cada novo eleito!

O Governo Federal tenta através do Decreto 10.229/20 publicado na quinta-feira, 6, regulamentar o uso de normas internacionais mais modernas, quando as normas brasileiras estiverem desatualizadas, no entanto, ainda existem muitas discussões sobre o tema e até que esta solução possa ser utilizado em obras e projetos públicos o impasse permanece.

Somos todos cidadãos na essência da palavra e quando a enchente vem ela não quer saber se você é operário, vereador, prefeito, governador, presidente, médico, engenheiro, bandido, policial, homem, mulher, adulto ou criança, ela pode levar tudo e todos, portanto, precisamos fazer a nossa parte, porque no fim, todos somos culpados.

* Joel Rodrigues é Engenheiro Civil, 41 anos, casado, dois filhos, MBA em Gestão de Negócios, pós-graduando em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas e Engenharia Ferroviária pelo Instituto de Pós-graduação de Goiânia. Possui experiência de mais de 20 anos em projetos, obras e serviços de engenharia em empresas de Construção, Montagem, Manutenção Civil e Industrial, com atuação nos segmentos Aeroportuário, Hospitalar, Portuário, Transporte de Valores, Segurança Patrimonial, Naval, Concessões, Óleo & Gás, Obras Públicas, Infraestrutura entre outras.

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