Inclusão de verdade não é manter alguém no mesmo lugar com mais conforto
Auxiliar não é a mesma coisa que transformar
Assistência é necessária. É dignidade. É base.
Mas nunca foi para ser o destino.
O Brasil tem hoje 14,4 milhões de pessoas com deficiência, segundo o IBGE. Ao mesmo tempo, possui mais de 800 mil organizações do terceiro setor espalhadas pelo país.
Dentro desse universo, estima-se que cerca de 4 mil ONGs atuem diretamente com pessoas com deficiência.
Agora vamos fazer uma conta simples, daquelas que ninguém gosta de fazer.
Se dividirmos o número de pessoas com deficiência pelo número de ONGs voltadas para esse público, chegamos a uma média de aproximadamente 3.600 pessoas com deficiência por entidade.
A pergunta é inevitável:
Com esse volume de organizações… o problema já não deveria ter diminuído de forma mais consistente?
E antes que alguém distorça o raciocínio, é importante deixar claro: existem ONGs sérias, comprometidas e que transformam vidas todos os dias.
Mas também existe um modelo que precisa ser questionado.
Porque ajudar não é a mesma coisa que transformar.
O Brasil movimenta bilhões todos os anos em projetos sociais. Só através da Lei de Incentivo ao Esporte e da Lei de Incentivo à Cultura, estamos falando de aproximadamente R$ 4,4 bilhões por ano destinados a projetos.
Quando somamos as emendas parlamentares federais, esse número sobe para algo próximo de R$ 40 bilhões anuais.
E quando ampliamos o olhar para estados e municípios, considerando emendas locais e leis de incentivo regionais, as estimativas indicam que o sistema pode movimentar algo entre R$ 70 e R$ 100 bilhões por ano.
Agora vem a conta que realmente incomoda.
Se considerarmos um cenário conservador de R$ 70 bilhões por ano, e dividirmos esse valor pelo número total de ONGs no Brasil, temos uma média de aproximadamente:
👉 R$ 85 mil por ONG por ano
Se olharmos apenas para as ONGs que atuam com pessoas com deficiência, e fizermos uma divisão proporcional simples, teríamos algo em torno de:
👉 R$ 17,5 milhões por ONG especializada por ano
E agora o dado mais sensível de todos.
Se dividirmos esse valor pelas aproximadamente 3.600 pessoas com deficiência que cada ONG teria sob sua responsabilidade, teríamos:
👉 cerca de R$ 4.800 por pessoa por ano
Agora a pergunta precisa ser feita de forma direta:
Com esse volume de recurso…
quantas vidas estão sendo realmente transformadas?
Porque atender não é transformar.
Manter assistido não é desenvolver.
Existe uma diferença brutal entre aliviar o problema e resolver o problema.
E o Brasil se especializou em aliviar.
No campo da pessoa com deficiência, isso é ainda mais sensível. Estamos falando de uma população que enfrenta barreiras reais. Mas também estamos falando de um país que possui políticas públicas, cotas, programas e mecanismos legais.
E mesmo assim, a autonomia não cresce na mesma proporção.
Por quê?
Porque, em muitos casos, o sistema não está estruturado para desenvolver autonomia. Está estruturado para manter assistência.
Parte do terceiro setor deixou de ser solução e passou a depender da existência do problema para continuar existindo.
E isso não é uma acusação emocional. É uma análise de modelo.
Muitas organizações captam recursos a partir da narrativa da vulnerabilidade. Prestam contas com base em atividades. Mostram quantas pessoas atenderam? Quantos eventos realizaram?
Mas quase nunca respondem a pergunta mais importante:
Quantas pessoas deixaram de depender?
Porque atividade não é resultado.
E quando a existência do problema sustenta o funcionamento da estrutura, resolver o problema deixa de ser prioridade.
Eu falo com propriedade porque vivo isso na prática.
No esporte, eu não assisto. Eu desenvolvo.
Eu não crio dependentes. Eu formo atletas, professores, pessoas produtivas.
E isso não acontece com proteção excessiva.
Acontece com exigência, disciplina, integração e oportunidade real.
Porque inclusão de verdade não é manter alguém no mesmo lugar com mais conforto.
É dar condição para essa pessoa avançar.
O terceiro setor tem um papel fundamental. O Estado tem responsabilidade. A sociedade também.
Mas enquanto o foco for manter — e não transformar — o problema vai continuar existindo.
Bem organizado.
Bem financiado.
E sem solução.
Ajudar é necessário.
Transformar é responsabilidade.
*Alan Nascimento é técnico da Seleção Brasileira de Taekwondo Paralímpico, com participação nos Jogos Paralímpicos de Tóquio 2020 e Paris 2024, além dos Jogos Parapan-Americanos de Lima 2019 e Santiago 2023. É pioneiro no desenvolvimento do parataekwondo no Brasil, ex-presidente da Federação Brasileira de Parataekwondo e atual presidente da AVISA (Associação Visando o Amor), organização dedicada à inclusão e ao esporte para pessoas com deficiência. É autor do livro “Parataekwondo – História, desafios e vitórias – Manual Prático do Parataekwondo”, considerada a primeira obra do mundo dedicada exclusivamente à modalidade. Dedica sua trajetória à formação de atletas, à defesa dos direitos das pessoas com deficiência e ao fortalecimento do esporte como ferramenta de transformação social.



