Nada do que aconteceu dentro das quatro linhas nesse final de semana foi mais importante do que os rompimentos registrados em dois dos maiores clubes do país
Desde que escrevi minha última coluna aqui, muita coisa aconteceu: o Corinthians evitou o vexame de ser eliminado pelo Remo – embora a dose de dramaticidade tenha sido maior do que a torcida imaginava, Cuca pediu demissão do clube e um assunto que não foi abordado no texto da semana passada voltou à tona. O São Paulo rescindiu seu contrato com o atacante Pedrinho, acusado por agressão à sua ex-namorada. Ah, também houve um dérbi, com mais uma vitória (esperada) do Palmeiras. Mas para falar de bola rolando, teremos outras inúmeras oportunidades. Hoje, a prioridade é outra aqui.
Sabemos que os casos de Cuca e Pedrinho teriam repercussões completamente distintas há alguns anos. Felizmente, a sociedade tem mudado e (parte dela) não tolera mais comportamentos tóxicos, crimes, no português claro. E, de novo, gostaria de deixar claro que não quero ser juiz e nem cancelar ninguém. Mas, como uma pessoa que trabalha com comunicação, não posso deixar de pensar nas mensagens transmitidas em todos esses processos.
Apesar de já fazer 36 anos, o escândalo de Berna foi reaberto com detalhes sórdidos desde a contratação de Cuca pelo Corinthians. E com as novas informações, fica muito difícil fingir que nada aconteceu. Passar por cima da história é assinar um cheque em branco. É dizer para os homens do futuro que tudo é permitido. “Olha, não importa que seja condenado por estupro: você, ainda assim, poderá treinar os maiores clubes do país e ganhar R$ 1 milhão por mês”.
O clube de Parque São Jorge e alguns de seus jogadores até tentaram dar aquela famosa “passada de pano”. Porém, como disse o personagem Ted Lasso, em série de mesmo nome: “O time é dos torcedores. Os técnicos e atletas só o pegam emprestado um pouco”. Parte dos corintianos mostrou que Ted tinha razão. Graças à pressão dela, Cuca foi embora.
Sobre o caso do Pedrinho, agora ex-São Paulo, as mensagens trocadas com sua ex-namorada são estarrecedoras. O Tricolor paulista demorou para tomar uma decisão, mas ainda bem que optou pela mais acertada: romper com o jogador. Mais uma vez, manter um suposto agressor, em um dos maiores clubes do país, transmitiria um recado péssimo a todos.
Sinceramente, eu acredito no arrependimento das pessoas e acho que elas precisam recomeçar de alguma forma. No entanto, nenhum recomeço pode dar certo com um salário milionário e uma alta popularidade. E é isso que as equipes de futebol proporcionam.
Cuca e Pedrinho, assim como todos os homens (e me incluo nisso – lógico que já errei e muito nessa vida), precisam refletir sobre suas atitudes.
Nós necessitamos entender e admitir nossos erros (nos casos deles, há muitas evidências). Pedir, verdadeiramente, perdão à sociedade. Fazer parte da desconstrução desta masculinidade tão nociva e ainda presente no nosso dia a dia. Esses são os recados que o esporte nos deu nos últimos dias. Que possamos compreendê-los e praticá-los.



