Uma grande obra de engenharia não se mede apenas pelos canos que são instalados
Olá, pessoal! Aqui é o engenheiro Joel Rodrigues, e na nossa coluna Engenheirando de hoje, vamos mergulhar em um assunto que tem tirado o sono de muito guarulhense: as intermináveis obras da Sabesp. Para entender a dimensão do desafio, precisamos voltar a 2019. Foi nesse ano que a gestão da infraestrutura de água e esgoto da cidade passou do nosso SAAE (Serviço Autônomo de Água e Esgoto) para a Sabesp.
O cenário era crítico: segundo dados da época, Guarulhos tratava apenas 3,24% do seu esgoto. Com a transferência, a autarquia estadual assumiu o compromisso contratual de elevar esse índice para cerca de 99% até 2029, além de modernizar a rede de água potável. Uma promessa nobre e de extrema necessidade.
O problema, como temos apurado em diversas fontes – desde portais de notícias e vídeos nas redes sociais até o conhecido site Reclame Aqui –, não está no “o quê”, mas no “como”. A cidade virou um queijo suíço, e o cidadão se sente no meio de um campo minado de buracos, trincas e canos estourados. Vamos, então, “engenheirar” um pouco e traduzir esse caos, mesclando o jargão técnico com o bom e velho português.
“Minha Casa Está Rachando!” – O Recalque Anunciado
Em dezenas de relatos online, moradores exibem, desesperados, as paredes de suas casas com fissuras que não estavam lá antes das obras. Seria coincidência? Dificilmente. Do ponto de vista técnico, o que provavelmente ocorre é um fenômeno chamado recalque diferencial. O nome é complicado, mas a ideia é simples: imagine que sua casa está construída sobre um tapete de terra firme. Quando uma vala gigante é aberta na sua rua, é como se puxassem uma parte desse tapete. A terra que estava do lado, quietinha, sustentando sua casa, tende a “escorregar” e se acomodar nesse novo espaço vazio. Esse movimento do solo, que não acontece de forma igual em toda a base da casa, gera tensões na estrutura, e o resultado visível são as trincas, fissuras, e em casos muito extremos, rachaduras.

Uma obra de engenharia responsável prevê isso. A norma técnica e a boa prática exigem uma vistoria cautelar – um verdadeiro “check-up” das casas vizinhas antes do início dos trabalhos – e o monitoramento contínuo durante a escavação. Pelas queixas, parece que essa lição de casa, fundamental para a segurança de todos, não foi feita com o devido rigor.
O Mistério do Cano que Estoura e o “Golpe de Aríete”
Outra queixa recorrente, vista em vídeos de denúncia, é a do cano que estoura “do nada” dentro de casa. A SABESP realiza uma obra na rua e, dias depois, o morador se vê com uma inundação. A explicação pode estar em dois fatores. O primeiro é um simples aumento de pressão: tubulações novas na rua podem elevar a pressão geral da rede, e os canos antigos da sua casa, que já não têm a mesma resistência, acabam cedendo.
O segundo é um fenômeno mais complexo, conhecido como golpe de aríete. Pense na água correndo em alta velocidade dentro do cano. Se o fluxo é interrompido ou alterado bruscamente – algo comum durante manobras na rede –, a água se choca contra as paredes da tubulação, criando um “tranco” violento, uma onda de choque que pode romper canos e conexões. Dizer que “o problema é interno” é uma meia verdade que ignora a causa primária do problema, que está na operação da rede externa.
A Armadilha do “Tapa Vala”: O Recalque do Pavimento
Agora, vamos ao campeão de reclamações: o famoso “tapa vala”. A equipe vem, abre o buraco, conserta o cano e… joga a mesma terra de volta. E aqui mora o detalhe técnico que transforma um reparo em um problema crônico. Muitas vezes, o solo que é retirado da vala está molhado, saturado de água. Esse solo é jogado de volta e, na melhor das hipóteses, passa por uma leve compactação com uma placa vibratória, aquele equipamento que o operador vai empurrando. O problema? Para um reparo duradouro, o solo precisa ser compactado em camadas, com a umidade controlada, para garantir uma base firme. Um solo encharcado não se compacta direito.
A placa vibratória, por sua vez, só compacta uma fina camada superficial. O resultado é uma base fofa e instável sob o asfalto. Com o trânsito pesado passando sobre o reparo, essa base cede, a água que estava no solo é expulsa e o volume diminui. O recalque do pavimento é certo. Aquele remendo que parecia perfeito afunda, criando uma valeta que danifica a suspensão dos carros, causa acidentes e prejudica a mobilidade urbana como um todo. É a antítese da engenharia: um reparo que nasce com defeito e gera mais custos e problemas no futuro.

Engenharia é para pessoas, não apenas para obras
No fim do dia, a análise das reclamações dos moradores de Guarulhos nos mostra uma lição importante. A chegada da SABESP trouxe a promessa de um futuro com mais saúde e qualidade de vida, saltando de 3% para 99% de esgoto tratado. Contudo, uma grande obra de engenharia não se mede apenas pelos canos que são instalados, mas pelo respeito com que ela trata o cidadão e a cidade no presente. De que adianta a promessa de saneamento se, no processo, sua casa racha, seu carro quebra e sua paciência se esgota?
Planejamento, comunicação e, principalmente, capricho na execução – seguindo as normas técnicas que existem para proteger a todos – são partes fundamentais da boa engenharia. A população de Guarulhos merece o progresso, mas também merece uma obra que não deixe um rastro de problemas para trás. Fica o recado.
Até a próxima!



