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Precisamos falar sobre o Centro de Guarulhos

Cachorro em fonte na praça Getúlio Vargas
Foto: Beto Martins
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Danilo Ramalho fala sobre a requalificação da região central guarulhense como forma de fomentar o turismo

Para quem não teve a oportunidade de caminhar pelo centro de Guarulhos nos últimos meses pode se assustar ao constatar o número de “vende-se” e “aluga-se” em cada esquina. Esta é uma realidade que vem gradativamente crescendo. Ao lado dessa desocupação sobrevivem empresas cartorárias, fornecedores do Detran, bares e lanchonetes antigas e uma imensa massa de comércio em contraste do que já foi o centro pulsante da cidade.

Para olhos desavisados essas mudanças podem ser tênues, mas não para quem já vislumbrou o problema de degradação nacional da região central de grandes cidades: estamos num período preocupante. A desocupação do centro da cidade, o baixo estado de conservação dos espaços públicos, o aumento de circulação de pessoas em vulnerabilidade social, ligam um alerta para a degradação em curso.

Vamos examinar algumas causas:

O Planejamento Urbano

O desenvolvimento urbano em Guarulhos desde que a cidade teve uma explosão demográfica a partir da década de 60 sempre foi caótico. A infraestrutura viária e o desenho urbano da cidade foram construídos sem o menor planejamento. Salvo pouquíssimas exceções de bairros planejados como Parque CECAP e Jardim Presidente Dutra, a grande maioria cresceu sem um norte ou limite.

Várias leis de zoneamento já foram realizadas e Planos Diretor foram aprovados, contudo sua execução vem com a pecha de ser sempre revisada pela vontade do governo de ocasião. Guarulhos não tem uma visão estratégica clara do que almeja no futuro nem tampouco tem o cuidado de priorizar suas identidades.

Se falarmos só do Centro de Guarulhos é o local que tem grande parte do patrimônio histórico da cidade: Igreja Matriz, Casa José Maurício, Antigo Paço, Prédio da Câmara, Praça Getúlio Vargas, Praça do IV Centenário, Biblioteca Monteiro Lobato, apenas este último está em conservação com um uso contínuo de atividades. Sobre este aspecto de planejamento urbano cabe uma tese, mas aqui quero só destacar a falta de horizonte futuro de cidade e do seu centro.

A Desocupação

O número de imóveis desocupados no centro é um fenômeno que vinha crescendo mesmo antes da pandemia. A série de crises econômicas e instabilidades financeiras aliado ao país que tem a quadragésima posição em ambiente de negócios, tornam a vida do empreendedor muito difícil. Empresas tem cada vez mais dificuldades em manter sua lucratividade e enfrentar ao mesmo tempo burocracia estatal, a alta de impostos e preços, e, cenários de incerteza. Muitas empresas abandonaram o centro pois simplesmente faliram. A pandemia do coronavírus agravou este quadro forçando quem tinha um mínimo de reserva a ter que fechar as portas.

As empresas saudáveis que sobreviveram também passaram por transformação. Com a possibilidade do trabalho remoto e o advento de demissões, necessárias para a empresa se manter de pé, fez com que muito da capacidade de salas e escritórios deixassem de ser relevantes. Várias empresas saíram do Centro e montaram estruturas menores, em prédios mais modernos, novos, modelo cowork, com plantas flexíveis e fora do centro. É uma mudança que está em pleno curso.

A Câmara Municipal de Guarulhos

A Câmara dos vereadores sempre ficou instalada no Centro da cidade. Junto com o Fórum constituem os prédios centrais mais relevantes onde se concentram um conjunto de funcionários públicos com uma massa salarial acima do mercado privado. Esse número de pessoas em circulação, e de que suas atividades decorrem, trazem grande fluxo de pessoas e consumo para a região. A Câmara, em especial, ao longo dos anos sempre cresceu em número de vereadores, o que requer mais gabinetes, mais funcionários e uma grande estrutura para mantê-la.

O antigo prédio da Câmara na Praça Getúlio Vargas desde que perdeu sua função original nunca conseguiu definir um uso adequado e contínuo. Foram investidos dinheiro do Ministério do Turismo para um restaurante escola, foram desembolsados recursos do Ministério da Cultura para a criação de um espaço cultural, houve debates sobre diversos usos como: museu, posto da guarda, café, cinema e até hoje encontra-se como um lugar não definido disputado por egos de secretarias e políticos. Ironicamente os próprios vereadores que se instalaram num prédio na frente nunca se deram o trabalho de assumir a responsabilidade e procurar soluções.

A Câmara tem uma função importantíssima, mas o histórico dos seus representantes consegue torná-la o órgão público mais caro, improdutivo e inútil para a cidade. Todavia não preciso elencar aqui às críticas à degradação da praça já bem divulgada pela mídia local e na percepção dos guarulhenses: o que temos no lugar de praça é um banheiro sujo a céu aberto. A saída da Câmara para um novo prédio na Vila Augusta, ainda que nem tão longe é mais fator de desdém com a região.

O atestato

Estes fatores somados: a falta de horizonte (planejamento urbano), a desocupação de imóveis, a recente saída da Câmara Municipal aliado a mau uso dos espaços e patrimônios públicos estão acelerando um processo que poderá ser muito custoso para o desenvolvimento da cidade. Veja o tamanho do investimento público que está sendo feito na nossa vizinha São Paulo para que o centro possa voltar a ser vigoroso.

São anos em que a cidade perde para o narcotráfico na Cracolânida e os investimentos parecem não ter fim para um dia restaurar aquele que já foi o bairro mais pujante da cidade. Mini cracolândias já se formam pelas ruas, na Praça IV Centenário, falta de perspectiva de solução; eu atesto que o centro de Guarulhos está em alerta laranja, é preciso reverter esse cenário antes do declínio total.

As oportunidades e soluções

A ideia de fazer este retrato atual do centro é para acender o debate na sociedade. Temos plenas condições de reverter esse quadro e criar um novo ciclo virtuoso para o Centro de Guarulhos. É também neste centro que se encontra a melhor infraestrutura de mobilidade urbana. Todos os ônibus passam por ali. Ainda há uma concentração de pessoas que moram no centro e nos bairros ao redor que podem contribuir formando um grande mercado consumidor e promissor para diversos negócios que ali se instalarem.

O centro tem histórico de ações que trouxeram resultados positivos e que ajudaram em sua qualificação. O calçadão da Dom Pedro quando feito fora imensamente criticado e hoje não dá pra imaginar a cidade sem ele. Já passou do tempo de uma requalificação. Ainda há no centro as principais universidades que além de já terem produzidos diversos projetos na região ajudam a revitalizar com a presença de jovens e estudantes.

Ouvir a comunidade, as empresas, as instituições de ensino, a Igreja, as associações, criar uma inteligência para conhecer os projetos existentes. Há uma massa crítica que está localizada ali e se bem mediada pode contribuir com a requalificação, revitalização e reabilitação do centro. É preciso tirar o preconceito e o estado de negação quando se fala de turismo em Guarulhos. Dar uso aos equipamentos públicos com olhar do turismo pode ser a forma de trazer vida, revigorar os espaços e patrimônios.

É através da transformação dos espaços, do placemaking, do turismo que grandes cidades do mundo inteiro deram novos significados aos seus centros. O embelezamento urbano, próprio de locais turísticos, o incentivo a economia criativa, propiciam o aumento da hospitalidade, a vontade das pessoas em frequentar, utilizar e promover novos negócios. É o ciclo virtuoso que pode transformar essa realidade. Seremos espectadores do declínio ou protagonistas da transformação? O desafio está colocado a todos os guarulhenses em especial aos que ainda resistem por lá.

*Danilo Ramalho é professor de turismo, membro do Conselho Municipal de Turismo e diretor executivo do GRU Convention.

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