Uma parcela significativa dos córregos de Guarulhos — e de praticamente todas as grandes cidades brasileiras — está cercada por moradias irregulares
Domingo, 25 de janeiro. A chuva que caiu sobre Guarulhos não pediu licença. Em poucas horas, despejou mais de 150 mm de água e transformou ruas em rios, córregos em tsunamis e sonhos em pesadelos. Famílias viram seus pertences serem levados pela enxurrada. Um motociclista foi arrastado por centenas de metros antes de ser resgatado por vizinhos solidários. A cena se repetiu em dezenas de bairros: Jardim Testai, Cocaia, Taboão, Rossi Cerconi, Parque Cecap. Nomes diferentes, drama idêntico.
Mas vamos combinar uma coisa: culpar só a chuva é fácil demais. É como culpar o termômetro pela febre. A água que cai do céu é a mesma há milhares de anos. O que mudou fomos nós e a forma como construímos nossas cidades. O que estamos vivendo é uma verdadeira hidropatia urbana — a cidade adoeceu pela sua incapacidade de conviver com a água. E para a coluna Engenheirando, é hora de desmistificar esse diagnóstico e, principalmente, apontar o tratamento. Afinal, engenharia existe para resolver problemas, não para contemplá-los — e ela está ao alcance de qualquer gestor público que tenha vontade de aplicá-la.
Hidropatia Urbana: A Cidade Doente
O conceito de hidropatia urbana é uma metáfora poderosa para entender o que acontece com nossas cidades. Assim como o corpo humano depende de um sistema circulatório saudável para funcionar, a cidade depende de seus córregos, galerias e canais para drenar a água da chuva. Quando esses “vasos sanguíneos” estão entupidos, a cidade adoece — e os sintomas são as enchentes.

O Coração do Problema: Córregos Sufocados
Se você quer entender por que Guarulhos alaga, comece pelos córregos. Eles são as artérias da cidade, responsáveis por drenar a água da chuva e levá-la aos rios maiores. O problema é que essas artérias estão entupidas — e não é de colesterol, mas de lixo, sedimentos e, em muitos casos, casas construídas literalmente em cima delas.
O assoreamento — termo técnico para o acúmulo de terra, areia e detritos no leito dos córregos — é um dos vilões silenciosos das enchentes. Imagine um cano de esgoto pela metade: a água que antes passava com folga agora transborda ao menor aumento de vazão. É exatamente isso que acontece com nossos córregos. Décadas de erosão, obras mal executadas e descarte irregular de entulho reduziram drasticamente a capacidade de escoamento desses cursos d’água.

No Jardim Testai, por exemplo, moradores relatam que o córrego transbordou com uma intensidade nunca vista. Parte do problema, segundo eles, é uma obra da concessionária de saneamento que instalou tubulações na lateral do canal, reduzindo ainda mais o espaço disponível para a água. É o tipo de situação que nos faz perguntar: será que a mão esquerda sabe o que a direita está fazendo?
O Elefante na Sala: Ocupações Irregulares
Aqui entramos em terreno delicado, mas necessário. Uma parcela significativa dos córregos de Guarulhos — e de praticamente todas as grandes cidades brasileiras — está cercada por moradias irregulares. Casas construídas nas margens, muitas vezes avançando sobre o próprio leito do curso d’água. Essas ocupações não são apenas vítimas das enchentes; em muitos casos, são também parte da causa.
Quando uma casa é construída na margem de um córrego, ela impede o acesso de máquinas para limpeza e desassoreamento. Quando dezenas de casas fazem o mesmo, o córrego simplesmente desaparece do mapa da manutenção. A prefeitura não consegue entrar com equipamentos, não consegue limpar, não consegue fazer obras de contenção. O resultado? Um córrego abandonado que, na primeira chuva forte, cobra a conta de todos — inclusive daqueles que moram longe dele.
A solução passa, inegociavelmente, pelo exercício do poder de polícia do município. Não estamos falando de truculência ou de jogar famílias na rua. Estamos falando de planejamento, de cadastramento, de programas de aluguel social que permitam a realocação gradual e digna dessas famílias para áreas seguras. É crucial entender que manter pessoas em áreas de risco não é humanidade — é omissão. A verdadeira humanidade está em tirá-las de lá antes que a próxima tragédia aconteça.
E aqui vai uma conta simples, dessas que qualquer engenheiro sabe fazer: o custo de um programa consistente de aluguel social, somado às obras de recuperação dos córregos, é infinitamente menor do que os prejuízos acumulados ano após ano com enchentes. Estamos falando de casas destruídas, móveis perdidos, veículos danificados, comércios fechados, dias de trabalho perdidos, doenças de veiculação hídrica e, no limite, vidas ceifadas. A matemática é cruel, mas é clara: prevenir é mais barato do que remediar.
Tecnologia: A Aranha que Falta no Telhado
Se as ocupações irregulares dificultam o acesso, a tecnologia pode ser a resposta. Existem hoje equipamentos especializados, como as escavadeiras-aranha (spider excavators), projetadas justamente para operar em terrenos de difícil acesso: encostas íngremes, margens estreitas, áreas confinadas. Com suas pernas articuladas, esses equipamentos conseguem descer em locais onde máquinas convencionais simplesmente não entram.
A pergunta que fica é: por que não vemos essas tecnologias sendo utilizadas de forma sistemática em nossas cidades? A resposta, infelizmente, costuma ser uma combinação de falta de recursos, falta de planejamento e, em alguns casos, falta de conhecimento sobre as soluções disponíveis. A engenharia evoluiu. Está na hora de a gestão pública acompanhar.
Arsenal Tecnológico para Prevenção de Enchentes

Além das escavadeiras-aranha, existem drones para mapeamento de áreas de risco, sistemas de monitoramento em tempo real do nível dos córregos, sensores de vazão e até inteligência artificial para previsão de pontos críticos. O arsenal tecnológico está disponível. O que falta é a decisão política de utilizá-lo.
O Caso do Parque Cecap: Cuidado com as Conclusões Apressadas
Nas redes sociais e na imprensa, o caso do Parque Cecap ganhou destaque. Moradores apontam que os alagamentos se agravaram após intervenções em um terreno de 60 mil m² para a realização de um evento no fim do ano passado. A tese é que a impermeabilização do solo teria transformado a área em um “trampolim” para enxurradas.
É uma hipótese plausível? Sim. Está comprovada? Não necessariamente. E aqui precisamos ter a honestidade intelectual de reconhecer que as enchentes de domingo atingiram dezenas de bairros, muitos deles com histórico antigo de alagamentos. O Jardim Testai alaga há anos. O Cocaia alaga há anos. O Taboão alaga há anos. Atribuir toda a culpa a uma única intervenção recente é ignorar um problema estrutural que vem se acumulando há décadas.
Isso não significa que a questão do Parque Cecap deva ser ignorada. Pelo contrário: merece investigação técnica séria, com laudos de engenharia e estudos hidrológicos. Mas enquanto essa investigação não acontece, é indispensável que não percamos o foco no problema maior: a falta de infraestrutura de drenagem adequada em toda a cidade.
Engenheirando o Futuro: Soluções que Existem
A boa notícia é que a engenharia tem respostas. O conceito de “Cidades-Esponja”, desenvolvido pelo urbanista chinês Yu Kongjian, propõe uma mudança de paradigma: em vez de expulsar a água o mais rápido possível, devemos aprender a absorvê-la, retê-la e reutilizá-la [6].


Responsabilidades: Todo Mundo Tem Lição de Casa
Diante do caos, é natural buscar culpados. E a verdade é que a responsabilidade é compartilhada.
Ao Poder Público cabe a maior parcela. A jurisprudência brasileira é clara: o Estado pode ser responsabilizado por omissão quando deixa de prestar serviços essenciais ou os presta de forma inadequada — a chamada faute du service. Isso inclui a falta de manutenção das galerias pluviais, a negligência no desassoreamento dos córregos, a permissão (omissão) para construções em áreas de risco e a ausência de planos de contingência efetivos. É inegociável que a gestão municipal assuma seu papel de forma proativa, com planejamento de longo prazo e não apenas com ações emergenciais pós-tragédia.
À população também cabe sua parte. O descarte irregular de lixo — colchões, sofás, entulho, plásticos — é um dos maiores responsáveis pelo entupimento de bueiros e galerias. A própria prefeitura divulgou imagens de resíduos obstruindo a tubulação do córrego dos Japoneses. Não adianta cobrar obras se, no dia seguinte, jogamos lixo na rua. A cidade é um organismo vivo, e cada cidadão é uma célula desse organismo.
O Ciclo Completo: Das Causas às Soluções
A Tendência: Ou Agimos, ou Afundamos
As mudanças climáticas não são mais previsão — são realidade. Os dados mostram que os desastres causados por chuvas aumentaram 222% na última década no Brasil. Chuvas mais intensas, em intervalos mais curtos, sobrecarregando uma infraestrutura que já era insuficiente. Cada temporal deixa sua cicatriz pluviométrica na cidade: casas destruídas, famílias desabrigadas, vidas interrompidas.
Se nada for feito, a tendência é clara: mais do mesmo, só que pior. Mais perdas materiais, mais sofrimento humano, mais dinheiro público gasto em emergências que poderiam ter sido evitadas. A conta não fecha. Ou melhor, fecha — mas quem paga é sempre o cidadão.
Guarulhos está em uma encruzilhada. Podemos continuar enxugando gelo, tapando buracos, distribuindo colchões e cestas básicas depois de cada tragédia. Ou podemos, de uma vez por todas, encarar o problema de frente: com planejamento, tecnologia, investimento e, sim, coragem política para tomar decisões difíceis.
A engenharia sabe o caminho. A questão é: teremos a resiliência hídrica — a capacidade de nos adaptar e resistir — para percorrê-lo?

*Joel Rodrigues dos Santos, engenheiro civil, especialista em Engenharia Ferroviária e MBA em Gestão de Negócios. Com mais de 25 anos de experiência em infraestrutura urbana, gestão pública e projetos de grande porte, atuou em empresas públicas de infraestrutura urbana de grande porte, como Gerente de Projetos em obras aeroportuárias, portuárias e offshore, e como Assessor da Câmara Municipal de Guarulhos. Com liderança em associações de classe de engenharia das mais diversas, dedica-se ao associativismo profissional e à democratização do conhecimento técnico. Sua atuação como colunista busca aproximar a engenharia do cotidiano da população, promovendo consciência urbana, participação cidadã e qualidade de vida nas cidades.



