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“Eu renasci”: sobreviventes de tentativas de feminicídio contam suas histórias

Foto: Unsplash
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Vítimas foram atendidas e acolhidas pela Patrulha Maria da Penha que completa quatro anos, nesta sexta-feira (5)

A Patrulha Maria da Penha completa quatro anos, nesta sexta-feira (5), um serviço da Guarda Civil Municipal de Guarulhos que presta assistência e monitora mais de 200 mulheres que sofreram violência doméstica, além de fiscalizar o cumprimento de medidas judiciais que determinam que seus agressores mantenham-se afastados das vítimas.

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Ao longo desse período, muitas mulheres foram acolhidas por toda a equipe. Flávia e Joana (nomes fictícios para proteger a identidade das vítimas) fazem parte dessa estatística. Sobreviventes de tentativas de feminicídio, ambas denunciaram os ex-maridos e hoje recebem proteção e apoio do programa.

O aniversário do patrulhamento coincide com os 16 anos da Lei Maria da Penha, que busca combater não somente as estatísticas, mas também o agravamento da dor e dos traumas causados pela violência de gênero às vítimas e a suas famílias.

“Eu falo que são anjos, é uma equipe incrível”, diz Flávia em referência à patrulha, que a acompanha desde o início das atitudes de seu ex-marido e chegou a prendê-lo ao flagrá-lo perseguindo-a.

Ao todo 26 agressores já foram presos por se aproximarem das vítimas após decisão judicial que determinou que mantivessem distância. O serviço já realizou quase 9 mil fiscalizações de medidas protetivas, que consistem em visitas às residências dessas mulheres e rondas por seus bairros.

Depois que Flávia se separou de seu agressor teve que lidar com a síndrome do pânico, que a acompanhou por um longo período. Até mesmo barulhos comuns e ruídos em casa eram gatilhos que a fazem temer pela própria vida. Foram 27 anos de espancamentos, abusos sexuais, ameaças de morte e privação do direito de ir e vir.

“Eu não podia nem visitar a minha mãe”, relatou ela, que é profissional da saúde e precisou realizar os processos seletivos para empregar-se escondida do ex-companheiro.

A última agressão física ocorreu ao conquistar uma vaga de emprego, quando o criminoso a humilhou em seu local de trabalho na frente de seus colegas. De acordo com ela, foi nesse momento que estreitou sua relação com a GCM, que ela define como o primeiro órgão que realmente a ouviu, abraçou, acolheu e encorajou.

Essa história não é um caso isolado. No primeiro semestre deste ano foram registrados mais de 5,1 mil casos de violência contra a mulher em Guarulhos, entre lesões físicas, agressões psicológicas, estupros, assédios sexuais, calúnias e difamações. No país, o ciclo de violência doméstica tirou a vida de 3,8 mil pessoas em 2021.

Trabalho permanente

A GCM percorre semanalmente mais de 100 km por toda a cidade para garantir maior segurança às mulheres inseridas no programa e a suas famílias. O trajeto contempla todas as regiões, mas, de acordo com o Mapa da Violência contra as Mulheres da cidade, os bairros com os maiores índices de denúncias e flagrantes em 2022 foram Pimentas, Cumbica e Bonsucesso.

Foto: Divulgação/PMG

Outro ponto de parada da patrulha é a casa de Joana e sua filha. O ex-marido, inconformado com o divórcio e as denúncias registradas por ela, invadiu sua residência e a golpeou com três facadas que feriram gravemente a medula óssea, o pescoço e a coluna cervical. Atualmente ela vive sobre uma cama hospitalar adaptada para seu quarto.

Depois de dois meses de internação, seguida por dezenas de sessões de fisioterapia e exercícios em casa, Joana recobrou parte dos movimentos das mãos, do pescoço e dos pés.

“Mesmo no hospital a Patrulha Maria da Penha me deu apoio. Estavam sempre comigo para me ajudar naquele momento”, relembrou a sobrevivente, que mantém a fé no seu processo de recuperação.

O ciúme é a justificativa mais utilizada pelos agressores, que manipulam as mulheres muito antes de iniciarem as agressões físicas. Hoje a lei compreende como violência doméstica também os abusos psicológicos, sexuais, patrimoniais e contra a moral.

“O abuso começou logo no início da relação, mas eu não percebia. Para me arrumar, fazer cabelo ou unha, era sempre um briga. Eu tive que me demitir mais de cinco vezes por ciúmes dele. O objetivo era me fazer depender dele em tudo”, desabafou Joana.

Os guardas que atuam no serviço são capacitados em uma série de condutas, como escuta e orientação qualificada às vítimas, mediação de conflitos, aplicação da Lei Maria da Penha e demais serviços disponíveis para auxiliar no rompimento do ciclo de violência. O time já orientou mais de 500 pessoas que vivenciaram a violência doméstica.

“É bom saber que existem pessoas que estão empenhadas em fazer um serviço por amor e comprometimento”, reforçou Flávia.

As mulheres violentadas por ex-maridos são a maioria nas visitas realizadas pela Guarda, mas há também fiscalização de medidas protetivas para filhas que foram abusadas sexualmente por seus pais, uma neta assediada por seu avô e uma mãe maltratada pelo filho.

Liberdade

Uma rotina tranquila era inimaginável para Flávia. Agora, livre do ciclo de violência, ela aproveita todas as oportunidades que lhe aparecem, seja para estudar, viajar, apaixonar-se novamente ou fazer amizades.

“Eu renasci, não tinha noção de que uma vida assim existia”, disse. Criada sob ideais machistas, ela acreditava que estava condenada a um casamento que destruiu sua autoestima por quase três décadas. Ao ver os filhos sofrerem com a situação, apoiou-se em seu sentimento maternal para conseguir fazer a denúncia.

Joana pôde vestir no último Natal o vestido vermelho que havia comprado há cinco anos, além de passear com a filha sem preocupação. Ela relata colecionar histórias absurdas dos 15 anos em que esteve casada, mas, com o fim do relacionamento, retomou sua autoestima, a vaidade e tem fé em dias melhores.  

“Temos que educar sobre violência já na infância para que os meninos cresçam sem praticar esse crime. Quantas vezes ouvi que ele mandava em mim?”, ressaltou Joana, que em seguida agradeceu, emocionada, à patrulha por acompanhá-la. “Muito obrigada por tudo, não tenho palavras para falar sobre o apoio recebido. Se não fossem vocês e a Lei Maria da Penha, que funciona muito bem, como estariam essas mulheres?”, agradeceu.

Como denunciar

Para denunciar ligue para a Central de Atendimento à Mulher (180) ou para a GCM pelo telefone 153. Para acompanhamento psicossocial e orientação jurídica, contate o Centro de Referência de Atendimento às Mulheres em Situação de Violência Doméstica em Guarulhos pelo telefone 2469-1001.

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