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Engenheirando: Por que nossas casas estão queimando? O alerta silencioso dos incêndios em condomínios

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Foto: CBMERJ
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93% das ocorrências de incêndio em São Paulo acontecem em edificações irregulares, sem AVCB

Madrugada de 23 de março de 2026. Os moradores do Condomínio Graviola, no Jardim São Domingos, em Guarulhos, são acordados não pelo despertador, mas pelo som desesperador das sirenes do Corpo de Bombeiros. Um apartamento em chamas, fumaça densa, pânico e correria. Felizmente, a tragédia foi controlada a tempo, mas a cena tem se repetido com uma frequência assustadora em nossa cidade e em todo o estado.

Mas vamos combinar uma coisa: culpar apenas o “curto-circuito” é fácil demais. É como culpar o termômetro pela febre. A eletricidade que usamos hoje obedece às mesmas leis da física de cem anos atrás. O que mudou fomos nós, os nossos hábitos de consumo e a forma como (não) cuidamos das nossas edificações. O que estamos vivendo é uma verdadeira negligência estrutural — a cidade adoece pela sua incapacidade de prevenir o óbvio. E para a coluna Engenheirando, é hora de desmistificar esse diagnóstico e apontar o tratamento. Afinal, a engenharia existe para proteger vidas, não para lamentar cinzas.

O Fogo Mora ao Lado: A Realidade dos Condomínios

Se você quer entender por que nossos prédios estão queimando, comece olhando para a tomada da sua sala. O Instituto Sprinkler Brasil (ISB) cravou: 2024 bateu o recorde histórico com 2.453 incêndios estruturais noticiados no país. Em São Paulo, o cenário é de alerta vermelho: só nos primeiros cinco meses de 2025, o Corpo de Bombeiros registrou 2.688 ocorrências em edificações.

E adivinhe onde a maioria desses incêndios começa? Dentro de casa. Mais de 50% dos incêndios residenciais são causados por falhas elétricas. O roteiro é um clássico da imprudência: fiação antiga projetada para uma TV de tubo e uma geladeira, agora tentando suportar ar-condicionado, airfryer, micro-ondas e três celulares carregando simultaneamente no mesmo “benjamin” (o famoso e perigoso “T”).

O Elefante na Sala: A Irregularidade Silenciosa

Aqui entramos em um terreno delicado, mas inegociável. Um relatório de fiscalização operacional do TCE-SP (Tribunal de Contas do Estado de São Paulo) revelou um dado que deveria tirar o sono de qualquer morador: 93% das ocorrências de incêndio em imóveis sujeitos à licença dos Bombeiros ocorreram em edificações não regulares. Ou seja, prédios sem o AVCB (Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros) vigente.

O AVCB não é um “imposto” ou um pedaço de papel inútil para pendurar na portaria. Ele é a prova de que o seu condomínio tem hidrantes que funcionam, extintores carregados, portas corta-fogo que não estão travadas com calços de madeira e uma brigada treinada para agir antes que o fogo tome conta do andar. Viver em um prédio sem AVCB é como andar em um carro a 120 km/h sem cinto de segurança e com os freios gastos, torcendo para não precisar deles.

O Cenário em Guarulhos: Uma Cidade em Ebulição

Guarulhos não foge à regra. Como a segunda maior cidade do estado, com mais de 1,34 milhão de habitantes, vivemos um crescimento urbano acelerado. O nosso 5º Grupamento de Bombeiros (5º GB), sediado no Bom Clima, faz um trabalho hercúleo atendendo a uma média de 35 ocorrências diárias na região.

Somente nos últimos meses, além do susto no Condomínio Graviola, vimos um galpão de reciclagem de 600m² ser devorado pelas chamas no Jardim Iporanga, exigindo 80 bombeiros para evitar que o fogo engolisse as casas vizinhas. Vimos também barracos virarem cinzas em uma comunidade nos Pimentas.

Enquanto na capital o debate gira em torno de incêndios em favelas localizadas em áreas supervalorizadas, aqui em Guarulhos o desafio é duplo: precisamos regularizar nossos condomínios verticais e levar infraestrutura básica para as áreas periféricas, onde o “gato” na rede elétrica não é escolha, é sobrevivência — e muitas vezes, sentença de morte.

Engenheirando o Futuro: Soluções que Existem

A boa notícia é que a engenharia tem as respostas. Não precisamos inventar a roda, precisamos apenas aplicá-la.

  1. Retrofit Elétrico Imediato: Se o seu prédio tem mais de 20 anos, a fiação está obsoleta. A norma ABNT NBR 5410 é a lei. Atualizar o quadro de energia é infinitamente mais barato do que reconstruir um apartamento incendiado.
  2. Engenharia Preventiva em Reformas: Vai quebrar parede? Vai trocar piso? Exija um Responsável Técnico (Engenheiro) e a devida ART. Obras feitas por leigos frequentemente danificam sistemas de proteção contra incêndio do condomínio.
  3. AVCB como Prioridade Zero: Síndicos e moradores, o AVCB é inegociável. A multa por falta do documento pode ultrapassar os R$ 200 mil, mas o custo em vidas é impagável.

Guarulhos está crescendo para o alto. Podemos continuar contando com a sorte e com o heroísmo dos nossos bombeiros, ou podemos assumir a responsabilidade pelas nossas edificações. A engenharia sabe o caminho. A questão é: teremos a consciência cidadã para percorrê-lo antes que a próxima sirene toque?

*Joel Rodrigues dos Santos, engenheiro civil, especialista em Engenharia Ferroviária e MBA em Gestão de Negócios. Com mais de 25 anos de experiência em infraestrutura urbana, gestão pública e projetos de grande porte, atuou em empresas públicas de infraestrutura urbana de grande porte, como Gerente de Projetos em obras aeroportuárias, portuárias e offshore, e como Assessor da Câmara Municipal de Guarulhos. Com liderança em associações de classe de engenharia das mais diversas, dedica-se ao associativismo profissional e à democratização do conhecimento técnico. Sua atuação como colunista busca aproximar a engenharia do cotidiano da população, promovendo consciência urbana, participação cidadã e qualidade de vida nas cidades e valorização profissional.

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