É necessário “esverdear” Guarulhos, mas isso deve ser feito de forma consciente e ambientalmente responsável
Quando pensamos em “meio ambiente”, a primeira imagem que costuma vir à mente é a de uma floresta densa, distante e intocada. No entanto, o meio ambiente é, essencialmente, o espaço onde vivemos, trabalhamos, estudamos e construímos nossa história. A cidade de Guarulhos é o nosso meio ambiente imediato e, como tal, precisa de cuidados urgentes. Com a posse dos novos membros do Condema (Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente) e do Fundambiental em 24 de junho de 2026, para o biênio 2026/2028, abre-se uma janela de oportunidade crucial para repensarmos o desenvolvimento urbano da nossa cidade.
É fundamental que, neste novo ciclo, o governo municipal estabeleça um diálogo constante com a sociedade civil e, principalmente, com as entidades de classe. Leis e políticas públicas que impactam o ordenamento urbano devem, obrigatoriamente, contar com a expertise técnica de engenheiros e arquitetos — profissionais que compreendem as dinâmicas do solo, da água, do clima e das edificações.
O perfil urbano de uma cidade que cresceu rápido demais
Nas últimas duas décadas, Guarulhos passou por uma transformação urbana acelerada e, em grande parte, desordenada. Dados recentes do MapBiomas (Coleção 10.1) revelam que a área urbanizada do município cresceu exponencialmente, ocupando hoje quase metade de todo o nosso território — 49,6%, ou 15.808 hectares de concreto, asfalto e edificações.

Enquanto a vegetação se mantém protegida apenas nas Unidades de Conservação concentradas na região norte, as áreas de transição (o chamado “mosaico de usos”, onde ainda havia alguma vegetação entre o urbano e o rural) sofreram uma redução drástica de 54,5% desde 1985, dando lugar ao asfalto e ao concreto. O resultado desse processo de impermeabilização e ocupação irregular, que frequentemente avança sobre áreas de risco, é sentido na pele por todos os guarulhenses: o índice de área verde por habitante na cidade é de ínfimos 0,69 m², um valor 17 vezes menor que o mínimo de 12 m² recomendado pela Organização Mundial da Saúde.
Não é só calor: é um clima desregulado
Essa escassez de vegetação tem um preço alto, que se traduz em extremos climáticos cada vez mais severos — e não apenas no verão. Estudos do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP (IAG-USP) apontam que a temperatura média na Região Metropolitana de São Paulo aumentou 2,5°C desde 1933, aquecendo o dobro da média global. Em outubro de 2024, Guarulhos registrou recorde absoluto de calor: 38°C. As ondas de calor extremo tornaram-se até sete vezes mais frequentes na última década.
Porém, o problema não se resume ao aumento de temperatura. Estamos diante de um ambiente climático desregulado, com extremos cada vez mais acentuados em todas as estações. No inverno que acabamos de iniciar, em 25 de junho de 2026, São Paulo registrou a menor temperatura máxima para o mês de junho em 30 anos: apenas 13,4°C, quase 10°C abaixo da média para o período. Em Guarulhos, as mínimas chegaram a 10,3°C na primeira quinzena de junho. No inverno de 2021, ao menos 17 moradores em situação de rua morreram de frio em São Paulo.

Uma pesquisa inédita da Unicamp, publicada na revista PLOS Climate, revelou que o Brasil registra cerca de 6 mil mortes por ano por doenças respiratórias diretamente relacionadas a temperaturas extremas — tanto calor quanto frio. No Sudeste, os efeitos são mistos: o calor mata de forma imediata (em 2 a 3 dias), enquanto o frio tem efeito prolongado, influenciando a mortalidade por até três semanas após a exposição. Os idosos concentram 75% dessas mortes. A cada inverno, as internações por síndromes respiratórias agudas disparam nos hospitais da região.
O que une esses extremos é justamente a ausência de vegetação urbana. Áreas sem cobertura vegetal sofrem mais em ambas as direções: no verão, o concreto absorve e irradia calor, formando as ilhas de calor; no inverno, o mesmo concreto perde calor rapidamente, sem a vegetação para funcionar como um “cobertor térmico” natural. Projetos de monitoramento climático local, como o Cidade Motriz, já identificaram que bairros densamente cimentados em Guarulhos podem registrar temperaturas até 4°C superiores no calor — e perdem calor proporcionalmente mais rápido no frio — em comparação a áreas próximas a fragmentos florestais. A vegetação atua como reguladora térmica: ameniza o calor no verão e reduz a perda de calor no inverno, diminuindo a amplitude térmica que tanto castiga a saúde da população.
O papel da engenharia: esverdear com responsabilidade
Diante desse cenário de desregulação climática e crescimento desordenado, a engenharia civil e ambiental surge não como vilã, mas como a principal aliada na busca por soluções. É necessário “esverdear” Guarulhos, mas isso deve ser feito de forma consciente e ambientalmente responsável. Não se trata de plantar espécies exóticas meramente por estética — árvores que muitas vezes destroem calçadas, rompem redes de esgoto ou não se adaptam ao nosso clima.
A engenharia, aliada à biologia e ao paisagismo, orienta o uso do bioma adequado: a nossa Mata Atlântica nativa. Espécies como o pau-ferro, o ipê, a quaresmeira, o manacá-da-serra e a pitangueira são adaptadas ao clima local, exigem menos manutenção, consomem menos água, atraem a fauna silvestre e proporcionam sombreamento eficiente sem agredir a infraestrutura subterrânea.
Para mitigar as ilhas de calor, reduzir enchentes e equilibrar a amplitude térmica, a infraestrutura urbana tradicional (cinza) precisa ser integrada à infraestrutura verde, através das chamadas Soluções Baseadas na Natureza (SbN). A engenharia moderna oferece recursos práticos e comprovados:
| Solução | Como funciona | Benefício principal |
| Jardins de chuva | Depressões com solo preparado e plantas nativas que captam, filtram e infiltram a água da chuva | Reduz enchentes e refresca o microclima |
| Biovaletas | Canais vegetados ao longo de ruas que conduzem e filtram a água pluvial | Substitui bocas-de-lobo e reduz poluição hídrica |
| Telhados verdes | Cobertura vegetal sobre lajes de edifícios | Isolamento térmico (reduz calor e frio) e retém água |
| Pavimentos permeáveis | Pisos que permitem a infiltração da água no solo | Reduz alagamentos e recarrega o lençol freático |
| Arborização viária planejada | Árvores nativas em calçadas com espaço adequado para raízes | Sombreamento, conforto térmico e qualidade do ar |

Cada uma dessas soluções exige projeto de engenharia: dimensionamento hidráulico, análise de solo, compatibilização com redes subterrâneas e especificação botânica adequada. Não é algo que se improvisa — é ciência aplicada ao bem-estar urbano.
Crescimento desordenado e áreas de risco
A ocupação irregular em Guarulhos não é apenas um problema social — é um problema ambiental e de engenharia. Quando famílias se instalam em encostas, margens de córregos ou áreas de proteção permanente, o solo é impermeabilizado sem qualquer critério técnico, a vegetação ciliar é removida e o terreno se torna instável. O resultado são deslizamentos no verão chuvoso e enchentes cada vez mais severas. A engenharia geotécnica e a engenharia ambiental possuem as ferramentas para mapear essas áreas de risco, propor contenções adequadas e, principalmente, orientar o poder público sobre onde não se deve construir.
O papel da população
Viver de forma ambientalmente sustentável em Guarulhos exige um esforço conjunto. A engenharia tem o papel de projetar, orientar e fiscalizar a implantação dessas soluções urbanas, mas a população também é parte ativa desse ecossistema. Atitudes simples fazem diferença enorme na microdrenagem e no conforto térmico do bairro: manter áreas permeáveis nos quintais em vez de cimentar 100% do lote; adotar pequenos jardins de infiltração; plantar ao menos uma árvore nativa no terreno; usar coberturas claras que reflitam o calor; e preservar a vegetação existente ao invés de podá-la indiscriminadamente.

A cidade é um organismo vivo
Guarulhos não precisa apenas de mais prédios, mais asfalto ou mais concreto. Guarulhos precisa respirar. A posse do novo CONDEMA em junho de 2026 é um marco que deve simbolizar o início de uma nova relação entre a cidade e seu meio ambiente — que não está na floresta distante, mas aqui, no nosso bairro, na nossa rua, na nossa casa. A engenharia e a natureza precisam caminhar juntas, orientando o poder público e a população. Que os novos conselheiros saibam ouvir a ciência, as entidades de classe e a voz de quem sente na pele — literalmente — os efeitos de uma cidade que esqueceu de ser verde.
*Joel Rodrigues dos Santos, engenheiro civil, especialista em Engenharia Ferroviária e MBA em Gestão de Negócios. Com mais de 25 anos de experiência no setor de infraestrutura.



