Em 2018, o país atingiu o pico histórico de 128.871 concluintes em cursos de engenharia
É recorrente na mídia brasileira o debate sobre um iminente “apagão de engenheiros”. Manchetes anunciam déficits de profissionais e projetam que, em um futuro próximo, o país poderá enfrentar sérias dificuldades por falta de mão de obra qualificada na área tecnológica. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que o Brasil possui apenas 5,6 engenheiros formados para cada 100 mil habitantes, número distante do ideal [1]. O presidente do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (CONFEA), Eng. Vinicius Marchese, tem alertado que “estamos perdendo nossos cérebros” [1].
Essa preocupação apontada pelas lideranças do setor é extremamente válida e precisa ser encarada com seriedade. De fato, se o Brasil quiser retomar o crescimento sustentável, a demanda por engenheiros aumentará exponencialmente. No entanto, para que esse “apagão” não se concretize e seja devidamente corrigido, é fundamental compreender que o problema não reside apenas na capacidade de formação das universidades, mas sim em uma cadeia de fatores que envolvem investimento em infraestrutura, valorização profissional, melhoria na qualidade do ensino e ampliação das áreas de pesquisa e desenvolvimento.
Como bem ponderou a professora Luciana Montanari, da Escola Politécnica da USP: “Não é apagão de engenheiros; é apagão de condições para fazer engenharia no Brasil” [2]. A coluna Engenheirando propõe uma reflexão construtiva, demonstrando que o Brasil possui um grande potencial humano na engenharia, mas que precisa urgentemente oferecer oportunidades reais e respeito à profissão, em um esforço conjunto que já começa a ser liderado de forma sistêmica pelas novas gestões do Sistema CONFEA/CREA.
Atendendo à pedidos, também trago fontes, artigos e materiais complementares dos assuntos tratados no artigo, de forma com que você leitor, possa se aprofundar ainda mais.
1. A Realidade da Formação: O Potencial Brasileiro
O argumento de que o Brasil não forma engenheiros suficientes precisa ser contextualizado com os números do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). Em 2018, o país atingiu o pico histórico de 128.871 concluintes em cursos de engenharia. Embora esse número tenha recuado para 95.607 em 2023 [3], o volume continua expressivo. Segundo o estudo “A Engenharia em Números”, do CONFEA, entre 2009 e 2023, o Brasil formou mais de 1,3 milhão de engenheiros [4].
A queda recente na procura por cursos de engenharia — cerca de 44,5% entre 2015 e 2023 [3] — reflete a percepção dos jovens sobre o mercado atual. Diante de salários muitas vezes incompatíveis com a responsabilidade e da escassez de vagas técnicas, muitos talentos acabam optando por outras carreiras. Para reverter esse quadro e garantir os profissionais do futuro, o país precisa voltar a oferecer perspectivas claras de desenvolvimento.

2. A Estagnação da Infraestrutura: O Gargalo do Crescimento
A engenharia é o termômetro do desenvolvimento nacional. A demanda por engenheiros é diretamente proporcional ao nível de investimento produtivo e de infraestrutura.
Segundo o Sindicato Nacional da Indústria da Construção Pesada – Infraestrutura (Sinicon) e a consultoria Inter.B, o país precisa investir pelo menos 4% a 4,5% do PIB ao ano em infraestrutura. Contudo, os investimentos têm ficado sistematicamente abaixo de 2% — um nível que mal repõe a depreciação do estoque existente [5].

O período de 2010 a 2014, de grandes investimentos públicos, coincidiu com o pico de registros de novos profissionais no CONFEA [4]. Hoje, com milhares de obras paralisadas no país [6], a construção civil e a indústria de transformação não conseguem absorver sozinhas a mão de obra especializada. Sem obras, sem pesquisa e sem desenvolvimento, o engenheiro acaba migrando para o setor financeiro ou comercial.
3. O Desvio de Função: A Necessidade de Valorização
Diante de um mercado retraído, popularizou-se uma prática que prejudica a profissão: o desvio de função. Inúmeros engenheiros são contratados como “analistas”, “gestores” ou “assistentes”. O objetivo, muitas vezes, é burlar a Lei 4.950-A/1966, que estabelece o Salário Mínimo Profissional (SMP) da categoria [7].
O Minicenso 2024 do CONFEA, realizado de forma inédita pelo Instituto Quaest, expôs que 82% dos respondentes consideram as condições de trabalho e os salários pouco atrativos [2]. Ao aceitar cargos com nomenclaturas genéricas, o engenheiro exerce atividades técnicas sem a devida Anotação de Responsabilidade Técnica (ART). Essa prática desvaloriza o profissional e, mais grave ainda, retira da sociedade a garantia de que os serviços estão sendo executados com o rigor técnico exigido por lei.
4. O Brasil no Contexto Global
A necessidade de investir na engenharia fica evidente na comparação internacional. Países desenvolvidos como Japão, Alemanha e Estados Unidos possuem até 25 engenheiros formados para cada 100 mil habitantes, enquanto o Brasil amarga a taxa de 5,6 por 100 mil [1].

A Coreia do Sul, que nos anos 1970 tinha PIB per capita semelhante ao brasileiro, investiu pesadamente em formação técnica. Hoje, 22% de seus formandos são de engenharia e 7-8% de sua força de trabalho atua em ocupações STEM (Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática). O Brasil, por sua vez, emprega apenas 1 em cada 100 trabalhadores em ocupações STEM [8].

5. Novos Tempos: A Postura Proativa do Sistema CONFEA/CREA
É importante reconhecer que a estagnação observada em anos anteriores no mercado e nas próprias instituições representativas deveu-se, em parte, a posturas mais conservadoras do passado. No entanto, o cenário atual é de transformação. As novas lideranças do Sistema CONFEA/CREA têm se destacado por uma visão sistêmica, moderna e focada em ações concretas que visam a melhoria da qualidade da engenharia e das condições dos profissionais.
No âmbito federal, o CONFEA, sob a presidência do Eng. Vinicius Marchese, lançou a Frente de Valorização Profissional, atuando firmemente contra editais que descumprem o piso salarial. Além disso, implementou isenções de anuidade para recém-formados e empreendedores individuais, incentivando a regularização [9]. A Força-Tarefa Nacional de Fiscalização, que já realizou oito operações integradas pelo país, resultou na contratação direta de mais de 1.200 profissionais e na emissão de mais de 2.700 ARTs, demonstrando que a fiscalização estruturada fortalece o mercado formal e gera empregos [10].
Em São Paulo, o CREA-SP vive um momento histórico. Sob a liderança da engenheira Lígia Mackey — a primeira mulher a presidir o Conselho em 90 anos —, a autarquia tem batido recordes sucessivos. Apenas no primeiro semestre de 2025, o Conselho registrou mais de 50 mil novos autos de infração e ampliou o registro de empresas em impressionantes 174%, com mais de 10 mil novos registros [11] [12].
Esse trabalho de desburocratização e uso de tecnologia (como o app FISCALiza) teve impacto direto na geração de oportunidades: só em 2025, mais de 11 mil profissionais foram cadastrados como responsáveis técnicos no estado de São Paulo [12]. Esses números mostram que, embora ainda haja muito a ser feito para suprir as necessidades da sociedade, as ações do CREA-SP e do CONFEA estão, de fato, gerando empregos e protegendo a população. Este é um trabalho recente, vigoroso, que precisa ser valorizado, divulgado e, principalmente, continuado.
No Congresso, com o apoio do Sistema, avançam pautas cruciais como o PL 626/2020 (“Engenheiro, sim. Analista, não”), aprovado em comissão em 2026 [13], e propostas de atualização do piso salarial e criminalização do exercício ilegal da profissão.
6. A Engenharia como Pilar da Sociedade
A sociedade precisa compreender que a contratação de engenheiros habilitados não é uma exigência burocrática, mas uma questão de segurança pública e proteção à vida.
A engenharia está na estrutura do edifício, na ponte, no saneamento e na rede elétrica. Quando um leigo ou um profissional em desvio de função (sem a devida ART) assume essas responsabilidades, os riscos são imensos. Diferentemente da medicina, onde um erro afeta um paciente por vez, o exercício ilegal ou negligente da engenharia pode resultar em tragédias que atingem centenas de pessoas simultaneamente — como desabamentos e rompimentos de estruturas, fatos cada vez mais presentes nas páginas dos jornais e nas mídias sociais.
Os números de fiscalização, como os do CREA-SP e de outros estados, mostram que ainda há muitas obras irregulares. Exigir o profissional correto é defender a coletividade.
7. Rompendo o Ciclo Vicioso para Construir o Futuro
O Brasil encontra-se em um ciclo que precisa ser rompido por meio de investimentos e valorização.

O alerta sobre a futura falta de engenheiros é real e oportuno. Para que tenhamos os profissionais necessários para o desenvolvimento do país nas próximas décadas, precisamos agir agora. Isso significa retomar grandes obras de infraestrutura, investir em pesquisa, cumprir a legislação trabalhista da categoria e apoiar o trabalho de fiscalização e modernização que as novas gestões do CONFEA e dos CREAs vêm realizando.
Não faltam talentos no Brasil. O que precisamos é levar a engenharia a sério, transformando-a de uma carreira de resistência para uma vocação de desenvolvimento nacional. Somente com oportunidades reais, incentivo e respeito à profissão conseguiremos reter nossos “cérebros” e construir o futuro seguro e próspero que a sociedade brasileira merece.

*Joel Rodrigues dos Santos, engenheiro civil, especialista em Engenharia Ferroviária e MBA em Gestão de Negócios. Com mais de 25 anos de experiência em infraestrutura urbana, gestão pública e projetos de grande porte, atuou em empresas públicas de infraestrutura urbana de grande porte, como Gerente de Projetos em obras aeroportuárias, portuárias e offshore, e como Assessor da Câmara Municipal de Guarulhos. Com liderança em associações de classe de engenharia das mais diversas, dedica-se ao associativismo profissional e à democratização do conhecimento técnico. Sua atuação como colunista busca aproximar a engenharia do cotidiano da população, promovendo consciência urbana, participação cidadã e qualidade de vida nas cidades.



