Existe também um risco silencioso no uso do Mounjaro quando não há acompanhamento nutricional
O Mounjaro é um medicamento injetável originalmente desenvolvido para o tratamento do diabetes tipo 2, mas que ganhou enorme visibilidade por um efeito colateral bastante desejado: a perda de peso. Ele atua em hormônios relacionados à fome e à saciedade, fazendo com que a pessoa sinta menos apetite, coma menores quantidades e pense menos em comida. Em um cenário em que o emagrecimento costuma ser difícil e frustrante, não é surpresa que tantas pessoas tenham recorrido à medicação em busca de resultados mais rápidos.
A promessa, de fato, é sedutora. O Mounjaro reduz o apetite, diminui a compulsão alimentar e o volume das refeições. O peso começa a cair, muitas vezes de forma rápida e consistente. Para quem passou anos lutando contra a balança, a sensação é quase imediata: “agora ficou fácil”. E, por um tempo, realmente fica.
O cuidado precisa entrar quando olhamos para o ponto cego dessa estratégia. A medicação não ensina a comer. Ela não reconstrói hábitos, não trabalha crenças antigas, nem resolve a culpa, o medo de engordar ou a relação emocional com a comida. O que acontece, na prática, é que quando o remédio entra, o comportamento alimentar muitas vezes fica em pausa, não tratado. O silêncio da fome não significa, necessariamente, que a relação com a comida foi resolvida.
Existe também um risco silencioso no uso do Mounjaro quando não há acompanhamento nutricional. Muitas pessoas passam a comer muito pouco sem perceber, o que pode levar à deficiência de proteínas e de micronutrientes importantes. A alimentação continua baseada em regras de “pode” e “não pode”, apenas com menos fome envolvida. Surge o medo extremo de parar o medicamento e, em muitos casos, o efeito sanfona após a suspensão, justamente porque nada foi estruturado para sustentar aquele novo peso.
É aqui que a nutrição entra — e entra como peça essencial. O papel do nutricionista não é competir com a medicação, mas complementar. É ensinar a comer mesmo quando a fome diminui, usando a nutrição de forma terapêutica. É ajustar quantidade, qualidade e frequência das refeições, respeitando o novo contexto do corpo. É trabalhar sinais de fome, saciedade e prazer, para que a alimentação volte a fazer sentido. E, principalmente, é ajudar a construir uma forma de comer que se sustente mesmo sem a caneta na mão.
A ideia central é simples, mas poderosa:
- A medicação muda o peso.
- A nutrição muda a relação com a comida.
O Mounjaro pode, sim, ser uma ferramenta valiosa no processo de emagrecimento. Para algumas pessoas, ele é um ponto de partida importante. Mas ele não é um tratamento completo quando usado sozinho. Sem nutrição e sem trabalho comportamental, o emagrecimento até acontece — mas dificilmente se sustenta ao longo do tempo.
*Débora Mingussi, nutricionista especializada em Nutrição Clínica, Metabolismo, Emagrecimento e Comportamento Alimentar. Atua na construção de uma rotina alimentar possível, leve e sem radicalismos — com estratégias práticas para quem vive a correria do dia a dia e quer cuidar da saúde sem culpa e sem a pressão da perfeição. Todo o seu trabalho é baseado em escolhas reais, prazer em comer e constância. Sua atuação une ciência, acolhimento e personalização para transformar a relação com a comida em algo mais equilibrado e autônomo.

