Adriana ficou internada no Hospital de Campanha do Cecap durante nove dias
Os dias de internação para o tratamento contra o novo coronavírus foram escritos por Adriana Campos Auricchio Silva, 40 anos, a próprio punho, em um caderno. Ela o chamou de “diário de luta e cura”.
Relatar um momento tão difícil, em folhas de papel, foi a maneira que Adriana encontrou de não deixar escapar nenhum detalhe de sua batalha contra o vírus, desde os primeiros sintomas, passando por momentos de medo e esperança, até receber alta.
Adriana também sentiu a dor de ficar longe da família e encontrou nos médicos o elo entre ela e os parentes. Por meio deles recebia mensagens de apoio.
“Muitos amigos me perguntam detalhes. Escrever para você será esclarecedor para todos, até para quem não conheço. As pessoas precisam saber que a doença pode ser vencida”, afirmou Adriana à reportagem do GRU Diário, respondendo ao nosso pedido de entrevista.
E completou: “A luta é longa, mas possível. Não podemos desistir.”
Leia abaixo a íntegra do depoimento:
“Boa noite, me chamo Adriana, tenho 40 anos, três filhos e uma família que amo. Quero deixar registrada a minha luta e vitória contra a covid-19. Diante de tantas mortes, quero trazer esperança e dizer que há cura. Eu sou um milagre vivo. Vou contar desde o início do sintoma, passando pelo tratamento até a minha alta.
Tudo começou por volta do dia 30 de junho, quando meu esposo apresentou sintomas de gripe. Eu tive algumas dores nas articulações.
Em 1 de julho: ele “ainda gripado”. Eu comecei a ter dores nas costas. Por nossa conta, tomamos antigripais, porém, sem sinais de melhoras. Seguimos assim até o dia 6, do mesmo mês.
Decidimos ir à UPA Paulista. Passamos muito rapidamente em atendimento. Fizemos raio-X e também exame de sangue que ficaria pronto em algumas horas. Voltamos para casa. Retornamos à UPA. Pegamos o exame e o resultado era normal, porém, o médico, muito cauteloso, já nos receitou o tratamento contra a covid.
Iniciamos a medicação no dia 7 de julho. Afinal, apresentamos todos os sintomas: diarreia, febre, tosse, dor no corpo, dor nas articulações, dor no globo ocular, dores de cabeça, perda de olfato e paladar, falta de ar e cansaço. Seguimos o tratamento acreditando estar tudo sob controle. Tomamos remédios e injeções.
A falta de ar melhorou para mim, mas após o efeito da injeção, voltaria. Meu marido seguia melhorando. Voltei à UPA em 10 de julho. Tomei injeção, fiz novo raio-X e voltei para casa.
Dia 11 de julho tive uma piora e retornei à UPA já com bastante falta de ar. Chegando lá, me internaram. Era por volta das 22h. Fiz novos exames e permaneci.
No dia 12 de julho, pela manhã, fui transferida para o Hospital de Campanha do Cecap. Lá chegando, fiz exames e tomografia. Descobri que estava com 30% de do pulmão comprometido, pouco mais que suficiente para o meu colapso.
Passei o dia lá e recebi novos medicamentos. Minha saturação oscilava muito, oxigênio baixo. Graças a atenção, preparo e cuidado dos médicos do Instituto Medizin [ eles integram a equipe do Hospital de Campanha do Cecap] que viram a gravidade do meu caso.
Fiz diversos exames, dentre eles, o gaso [gasometria: avalia a condição respiratória do paciente]. É o mais exato no que se refere à saturação. Exame extremamente doloroso, que tira sangue da artéria, porém, extremamente importante. Nele descobriram que poucos recursos eu teria, além da tão temida entubação.
MEU CHÃO CAIU
Ligaram para minha família avisando das chances de entubar e de UTI, porém, ainda seria tentada a VNI (ventilação não invasiva). Ali renascia a minha esperança.
A fisioterapeuta veio com aquele desconhecido aparelho para mim e me explicou como seria. Iniciaram o tratamento. Confesso que me desesperei. Era uma sensação horrível, mas necessária.
Lutei duas horas contra aquela força do vento que a máscara provoca. Ela agia mandando todo oxigênio para meu pulmão.
Ali eu clamava a Deus por uma chance. Chance de reviver, cuidar dos meus filhos e voltar para minha família. Eu não podia imaginá-los sem mim.
Ficar sem visita é a parte mais dolorosa. Porém, extremamente necessária. Afinal, esse era o único modo de estarmos protegidos. No período de internação, apenas o hospital entra em contato com nossos familiares. Recebi o recado de que minha família confiava e acreditava em minha recuperação, que estavam em paz e torcendo por mim. Isso me motivava.
A equipe médica era sensível a ponto de nos perguntar se queríamos mandar algum recado e se estávamos precisando de algo que nossa família pudesse levar. Recebi tudo o que precisei.
Eu me lembrava das pessoas curadas e sabia que era possível acontecer comigo. OREI. OREI. OREI.
Após duas horas, perceberam que teve resultado positivo. A entubação se tornava mais distante. Depois de um novo exame, descobriram que minha saturação havia aumentado. Graças a Deus! Eu estava melhorando. Que alívio, alegria e medo. Que experiência incrível de fé.
VIVI UM MILAGRE E ME LIVREI SEGUNDOS ANTES DO TUBO
Depois disso, voltei para a enfermaria e os acompanhamentos continuaram. Não poderia ficar fora do oxigênio nem por três segundos. Aquilo era vital. Não ia ao banheiro, só usava fralda, banho no leito, mas resistia, lutando a cada segundo. Aos poucos, os sintomas de falta de ar foram melhorando. A equipe médica baixou aos poucos a litragem de oxigênio. Assim, desmamei.
MEU PULMÃO VIVIA!!!!! Ele já trabalhava sozinho. Cansava, mas funcionava.
Após três dias, sem oxigênio, tive a minha tão sonhada alta, mesmo sabendo que houve um momento em que meu caso era o mais preocupante daquela enfermaria.Assim, se passaram 9 dias de internação e vitória.
Ainda carrego os roxos das injeções, mas que serão apenas lembranças do dia em que renasci.”

