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Engenheirando: O Caos Invisível, por que 71 bairros de Guarulhos ficaram sem água no mês passado?

obras sabesp

Foto: Divulgação/Sabesp

Rompimento de uma adutora deixou mais da metade da cidade com as torneiras secas em maio de 2026

Imagine abrir a torneira de casa depois de um longo dia de trabalho e não cair uma gota d’água. Agora, multiplique essa frustração por milhares de famílias espalhadas por 71 bairros de Guarulhos, incluindo regiões populosas como Cocaia, Bom Clima, Cecap, Picanço e Ponte Grande. Foi exatamente isso que aconteceu no final de maio de 2026, quando o rompimento de uma adutora de grande porte mergulhou mais da metade da nossa cidade em um caos hídrico que durou dias.

Para o cidadão comum, a água simplesmente “sumiu”. Mas para a engenharia, esse evento é um sintoma claro de um problema estrutural muito mais profundo que corre sob os nossos pés. Afinal, o que faz uma tubulação gigante estourar e paralisar uma cidade de 1,3 milhão de habitantes?

O que é uma Adutora e por que ela é o “Coração” do Sistema?

Para entender a gravidade da situação, precisamos primeiro desmistificar o caminho que a água faz até chegar à sua casa. A rede de abastecimento de uma cidade funciona de forma muito parecida com o corpo humano. As tubulações finas que chegam até o seu hidrômetro são como os capilares sanguíneos. Já as adutoras são as grandes artérias.

Uma adutora é uma tubulação de diâmetro colossal, projetada para transportar volumes massivos de água das Estações de Tratamento (ETAs) até os grandes reservatórios distribuídos pelos bairros. Ela opera sob altíssima pressão. Quando uma “artéria” dessas se rompe, o estrago é imediato e devastador. A pressão da água jorrando pode abrir crateras no asfalto, engolir carros e, claro, esvaziar os reservatórios que abastecem milhares de casas em questão de horas.

No caso de Guarulhos, a concessionária responsável informou que o rompimento ocorreu devido a um deslocamento de solo durante uma obra de ampliação do sistema de tratamento de esgoto, que acabou atingindo a tubulação da adutora. Isso nos leva ao segundo ponto crítico da engenharia urbana: a interferência no subsolo.

O Subsolo Congestionado e o Envelhecimento da Rede

O subsolo das grandes cidades brasileiras é um verdadeiro espaguete emaranhado de tubulações de água, esgoto, gás, cabos de energia e fibra óptica. Muitas vezes, essas redes foram instaladas há décadas, sem um mapeamento digital preciso (o famoso “as built” ou “como construído”). Quando uma retroescavadeira entra em ação para uma nova obra, o risco de atingir uma infraestrutura crítica invisível é enorme.

Além do risco de acidentes em obras de terceiros, temos o fator envelhecimento. Tubulações antigas sofrem com a fadiga do material, corrosão do solo e as constantes variações de pressão (os chamados “golpes de aríete”, que ocorrem quando a água é desligada e religada abruptamente). Sem um programa robusto de manutenção preventiva, que utilize tecnologias como geofones e robôs de inspeção interna para identificar microfissuras antes que elas virem grandes rupturas, a cidade fica à mercê da sorte.

A Conta da Privatização e a Qualidade do Serviço

É impossível analisar esse colapso hídrico sem olhar para o cenário da gestão. Segundo dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SINISA), Guarulhos possui índices invejáveis no papel: 100% da população atendida com água e 99,2% com coleta de esgoto. No entanto, a qualidade e a continuidade desse serviço vêm sendo questionadas.

A privatização da Sabesp, concluída em 2024, prometia mais eficiência. Contudo, relatórios recentes de entidades do setor, como o Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento (ONDAS), apontam um cenário preocupante. Houve uma redução drástica no quadro de funcionários técnicos experientes (quase 47% de cortes desde 2022) e um salto gigantesco nos lucros distribuídos aos acionistas.

IndicadorAntes da Privatização (2021-2023)Pós-Privatização (2024-2025)Variação
Lucro Líquido Médio AnualR$ 3,4 bilhõesR$ 9,2 bilhões+ 170%
Gastos com Pessoal (do valor adicionado)25,0%13,5%– 46%
Reclamações na Arsesp (1º Trimestre)Base de referênciaSalto significativo+ 70%

A engenharia nos ensina que não existe “mágica” em infraestrutura pesada. Quando se corta investimento em manutenção técnica e mão de obra qualificada para maximizar lucros de curto prazo, o resultado aparece na forma de adutoras rompidas, crateras em avenidas e torneiras secas.

Engenheirando Soluções: Como Evitar Novos Colapsos?

Para que Guarulhos não volte a sofrer com “apagões hídricos” dessa magnitude, a gestão pública e a concessionária precisam adotar medidas de engenharia de resiliência:

1 Mapeamento Digital 3D (BIM) do Subsolo: Nenhuma obra deveria começar sem um mapa tridimensional preciso do que existe debaixo da terra, evitando que escavações cegas rompam tubulações vitais.

2 Setorização Inteligente: Dividir a rede de água em blocos menores com válvulas automatizadas. Assim, se uma adutora romper, apenas um pequeno setor fica sem água, e não 71 bairros de uma vez.

3 Sensores de Pressão em Tempo Real: Instalar tecnologia IoT (Internet das Coisas) nas tubulações para detectar variações anormais de pressão, permitindo que as equipes ajam antes do rompimento total.

A água é o recurso mais básico para a vida e a dignidade humana. A engenharia tem todas as ferramentas e tecnologias necessárias para garantir que ela chegue com segurança e constância às nossas casas. O que falta é exigir que essas soluções saiam dos projetos acadêmicos e sejam aplicadas na prática, priorizando a segurança da população guarulhense acima dos lucros imediatos.

*Joel Rodrigues dos Santos, engenheiro civil, especialista em Engenharia Ferroviária e MBA em Gestão de Negócios. Com mais de 25 anos de experiência em infraestrutura urbana, gestão pública e projetos de grande porte, atuou em empresas públicas de infraestrutura urbana de grande porte, como Gerente de Projetos em obras aeroportuárias, portuárias e offshore, e como Assessor da Câmara Municipal de Guarulhos. Com liderança em associações de classe de engenharia das mais diversas, dedica-se ao associativismo profissional e à democratização do conhecimento técnico. Sua atuação como colunista busca aproximar a engenharia do cotidiano da população, promovendo consciência urbana, participação cidadã e qualidade de vida nas cidades e valorização profissional.

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