Não há problema em nós admitirmos que o jornalismo esportivo tem virado cada vez mais entretenimento
Carnaval é mais e do que uma manifestação cultural. É um resgate histórico de um povo que não costuma ver sua história em lugar nenhum. É onde o grito oprimido vira poesia. A rotina, nem sempre fácil, ganha fantasia. E uma aparente desordem é convertida em harmonia.
Cada lantejoula colorida tem um significado. Ajuda a montar um enredo que, assim como os próprios adereços, foi por meses costurado.
Assim como um carnavalesco, um jornalista também vive de contar histórias. Nem sempre com cores e glamour. Os fatos ganham formas em letras frias nas telas ou em papéis opacos que, no dia seguinte, já não servem mais. Ou servem apenas para limpar fezes animais.
Os fatos também podem ser traduzidos em imagens que chocam. Que choram. Que chovem. E como tem chovido nos últimos dias.
No esporte, o jornalismo tem contado que tipo de histórias? A de quem grita mais? A do mais polêmico? Daquele que xinga? A do engraçadão? Ou, sabe como é, né? Jovem mesmo gosta é daquela resenha. E é esse público que eles estão buscando.
Nada contra. No final do mês, todos temos boletos para pagar. Mas vamos ser sinceros? Isso é realmente jornalismo?
O que há de jornalístico nisso tudo? Acho que não há problema em nós admitirmos que o jornalismo esportivo tem virado cada vez mais entretenimento. E, de fato, está tudo bem! Não há mal nenhum nisso. Novos públicos, novos gostos e novos formatos. Aliás, se pensar que o Tiago Leifert assumiu o Globo Esporte de São Paulo em 2009, nem dá para dizer que é tão novo assim.
Então, é a morte do jornalismo esportivo? Só tem espaço para eventos ao vivo, resenhas, mesa-redondas, ex-jogadores, comentaristas e influenciadores? Acabaram-se as histórias?
Não! Não enquanto houver a dupla Rafael Valente e Celso Unzelte no Clássicos ESPN. Ou Andrey Raychtock, na Globo e no YouTube, onde tem o incrível canal “Por onde Andrey”. Ou Allan Simon e seu incansável trabalho de resgate histórico de mídia esportiva.
Enquanto esses (e outros) jornalistas estiverem resgatando histórias, eles estarão, na verdade, resgatando o próprio jornalismo esportivo.

